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Violência, a opressão e a falta de liberdade no matrimónio
em "Amoris Laetitia - O amor na família”
pelo Papa Francisco (2016)

  

Violência e manipulação mesmo no matrimónio

153. No contexto desta visão positiva da sexualidade, é oportuno apresentar o tema na sua integridade e com um são realismo. Pois não podemos ignorar que muitas vezes a sexualidade se despersonaliza e enche de patologias, de modo que «se torna cada vez mais ocasião e instrumento de afirmação do próprio eu e de satisfação egoísta dos próprios desejos e instintos».[155]
Neste tempo, também a sexualidade corre grande risco de se ver dominada pelo espírito venenoso do «usa e joga fora». Com frequência, o corpo do outro é manipulado como uma coisa que se conserva enquanto proporciona satisfação e se despreza quando perde atractivo.
Podem-se porventura ignorar ou dissimular as formas constantes de domínio, prepotência, abuso, perversão e violência sexual que resultam duma distorção do significado da sexualidade e sepultam a dignidade dos outros e o apelo ao amor sob uma obscura procura de si mesmo?

  

154. Nunca é demais lembrar que, mesmo no matrimónio, a sexualidade pode tornar-se fonte de sofrimento e manipulação.
Por isso, devemos reafirmar, claramente,
 que «um acto conjugal imposto ao próprio cônjuge, sem consideração pelas suas condições e pelos seus desejos legítimos, não é um verdadeiro acto de amor e nega, por isso mesmo, uma exigência de recta ordem moral, nas relações entre os esposos».
[156]
Os actos próprios da união sexual dos cônjuges correspondem à natureza da sexualidade querida por Deus, se forem vividos «de modo autenticamente humano».[157]
Por isso, São Paulo exortava:
«Que ninguém, nesta matéria, defraude e se aproveite do seu irmão» (1 Ts 4, 6).
E não obstante ele escrevesse numa época em que dominava uma cultura patriarcal, na qual a mulher era considerada um ser completamente subordinado ao homem, todavia ensinou
que a sexualidade deve ser uma questão a discutir entre os cônjuges: levantou a possibilidade de adiar as relações sexuais por algum tempo, mas «de mútuo acordo» (1 Cor 7, 5).

  

155. São João Paulo II fez uma advertência muito subtil, quando disse que o homem e a mulher são «ameaçados pela insaciabilidade».[158] Por outras palavras, são chamados a uma união cada vez mais intensa, mas correm o risco de pretender apagar as diferenças e a distância inevitável que existe entre os dois.
Com efeito, cada um possui uma dignidade própria e irrepetível.
Quando o bem precioso da pertença recíproca se transforma em domínio, «muda essencialmente a estrutura de comunhão na relação interpessoal».[159]
Na lógica do domínio, o dominador acaba também negando a sua própria dignidade[160] e, em última análise, deixa «de identificar-se subjectivamente com o próprio corpo»,[161] porque lhe tira todo o significado. Vive o sexo como evasão de si mesmo e como renúncia à beleza da união.

  

156. É importante deixar claro a rejeição de toda a forma de submissão sexual.
Por isso, convém evitar toda a interpretação inadequada do texto da Carta aos Efésios, onde se pede que «as mulheres [sejam submissas] aos seus maridos» (Ef 5, 22). São Paulo exprime-se em categorias culturais próprias daquela época; nós não devemos assumir esta roupagem cultural, mas a mensagem revelada que subjaz ao conjunto da perícope. Retomemos a sábia explicação de São João Paulo II:
«O amor exclui todo o género de submissão, pelo qual a mulher se tornasse serva ou escrava do marido (...).
A comunidade ou unidade, que devem constituir por causa do matrimónio, realiza-se através de uma recíproca doação, que é também submissão mútua».
[162]
Por isso, se diz que «devem também os maridos amar as suas mulheres, como o seu próprio corpo» (Ef 5, 28). Na realidade, o texto bíblico convida a superar o cómodo individualismo para viver disponíveis aos outros: «Submetei-vos uns aos outros» (Ef 5, 21).
Entre os cônjuges, esta recíproca «submissão» adquire um significado especial, devendo-se entender como uma pertença mútua livremente escolhida, com um conjunto de características de fidelidade, respeito e solicitude.
A sexualidade está ao serviço desta amizade conjugal de modo inseparável,
porque tende a procurar que o outro viva em plenitude.

  

157. Entretanto a rejeição das distorções da sexualidade e do erotismo nunca deveria levar-nos ao seu desprezo nem ao seu descuido.
O ideal do matrimónio não pode configurar-se apenas como uma doação generosa e sacrificada, onde cada um renuncia a qualquer necessidade pessoal e se preocupa apenas por fazer o bem ao outro, sem satisfação alguma.
Lembremo-nos de que um amor verdadeiro também sabe receber do outro, é capaz de se aceitar como vulnerável e necessitado, não renuncia a receber, com gratidão sincera e feliz, as expressões corporais do amor na carícia, no abraço, no beijo e na união sexual.
Bento XVI era claro a este respeito:
«Se o homem aspira a ser somente espírito e quer rejeitar a carne como uma herança apenas animalesca, então espírito e corpo perdem a sua dignidade».[163]
Por esta razão, «o homem também não pode viver exclusivamente no amor oblativo, descendente.
Não pode limitar-se sempre a dar, deve também receber.
Quem quer dar amor, deve ele mesmo recebê-lo em dom».
[164]

Em todo o caso, isto supõe ter presente que o equilíbrio humano é frágil, sempre permanece algo que resiste a ser humanizado e que, a qualquer momento, pode fugir-nos de mão novamente, recuperando as suas tendências mais primitivas e egoístas.

 

Formatação por M.Hanglberger (www.hanglberger-manfred.de)

 

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